domingo, 18 de maio de 2014

Processos Criativos – Projeto performance

“O cômico é a arte do feio”

Ariano Suassuna

Homero e a Comicidade Épica – A morte de Heitor

Apresentação

Minha proposta performática centrar-se-á fundamentalmente na narração parodística, em sua estrutura e características no que corresponde a um tratamento épico sobre a cena e no diálogo com o espectador. Trabalharei com dois referenciais práticos já existentes no meu repertório de ator e pesquisador. Para a construção da performance, terei como base a cena da segunda parte do meu espetáculo A Conferência (2007), em que narra uma história utilizando apenas um trabalho gestual com os dedos, e também o material teórico da pesquisa que realizei sobre a obra de Glauber Rocha e o Teatro Dialético de Bertlt Brecht, no mestrado, pois os mesmos continuam como subsídios para a pesquisa de doutorado que estou iniciando, agora centrando-me mais no diálogo com Antonin Artaud e o Teatro da Crueldade. Meu objetivo, portanto, é realizar um trabalho que ao mesmo possa corresponder aos preceitos teóricos e práticos propostos pela disciplina como também dialogar com meu próprio objeto de estudo, esboçando desde já um material que possa servir a uma futura publicação ou apresentação em congressos da área.

A cena escolhida pertence ao Canto XXII da Ilíada, o confronto entre Aquiles e Heitor.

Os deuses gregos sorriem e manipulam o destino dos homens! Do trágico ao cômico, tal jogo é verdadeira batalha pelo poder na terra ou no Olimpo. Conforme Bakhtin, Os deuses homéricos riem e se divertem em seu banquete de carne e vinho.

É exatamente no percurso da carnavalização proposto pelo teórico russo, alinhavando comicidade  e seriedade que pretendo desenvolver esse trabalho performático sobre trecho da Ilída, de Homero.

Cena/adaptação

Uma reprodução de luta com os dedos, objetos ou bonecos, com redução cênica ao mínimo do espaço cujo palco passa a ser a superfície de uma mala, tendo como referência uma cena do espetáculo A Conferência, escrito por mim há alguns anos. A cena original, no entanto, é a de Carlitos e a "dança" com os pães.

Roteiro básico:

A cena será adaptada da seguinte forma. Um homem, carregando uma velha mala, como espécie de pregoeiro/contador de histórias, entra cantando uma canção Na Estrada das Areias de Ouro, de Elomar Figueira de Melo, depois, senta-se em um banco ou cadeira. Enquanto o público entra ele puxa conversa com as pessoas sobre qualquer coisa, talvez sobre objetos que ele carrega na mala. Quando o público se acomoda ele abre a velha mala, retira da mesma um velho gravador, e acomoda a mesma sobre as pernas. A ideia é a redução mínima da cena, o palco onde acontecerá a cena a ser narrada é a própria mala que será iluminada com uma pequena lanterna. Em seguida, como um locutor de rádio, anuncia o grande evento. Antes entoa a canção Perseguição, de Sérgio Ricardo, tema do confronto entre Corisco e Antonio das Mortes, no filme Deus e O Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. O tempo e o espaço da narrativa épica estão preparados. A cena será realizada/narrada apenas com as mãos e dedos do ator na narração da luta entre Aquiles e Heitor. Na cena final, no diálogo épico e metafórico com a obra de Glauber Rocha, a ideia é ter a cena do confronto entre Corisco e Antônio das Mortes projetada no corpo do ator/narrado.

Movimento I – Entrada

Na Estrada das Areias de Ouro

Elomar Figueira Melo

Lá dentro no fundo do sertão
Tem uma estrada
de areia de ouro
Por onde andaram
Outrora senhores-de-engenho
E de muitas riquezas
Escravos e Senhoras
Naquelas terras imensas
De Nosso Senhor
Lá dentro no fundo do sertão
Tem uma estrada
de areia de ouro
E contam que em noites
De lua pela estrada encantada
Uma linda sinhazinha
Vestida de princesa
Perdida sozinha vagueia
Pelas areias
Guardando o ouro
De seu pai, seu senhor
Aquele fidalgo
que o tempo levou
Pras bandas do mar de pó
E hoje que tudo passou
A linda sinhazinha
Encantada ficou
Lá dentro no fundo do sertão
Na estrada
das areias de ouro
 Ou a cantoria 
Vou lhes contar uma história
Que aconteceu lá no sertão
Eram dois cabras-machos
Descendentes de lampião

Um lutava pela honra
Outro vingava um amigo
Heitor era um deles
Aquiles seu inimigo

Um empunhava uma espada
Outro um rifle bem comprido
No centro dessa disputa
Uma moça foragida

Helena foi para tróia
Atraída pelo umbigo
Dos prazeres da carne
Fez do leito seu abrigo!

Na vida como na morte
Todos buscam um sentido
O sangue escorreu pela pele

Faca ou tiro é um perigo


Movimento II - Narração

- Senhoras e senhores! Hoje, finalmente chegou o grande dia da grande batalha! De um lado um magnífíco defensor de Tróia, o maravilhoso Heitor, o matador de homens! De outro lado, o virtuoso, o magnânimo semi-deus, sem mais conter toda a sua ira, Aquiles! Aquiles, o vingador, que promete vingar a morte de seu grande mante/amigo, Pátroclo! É a peleja do dragão da maldade contra o santo Guerreiro!
Começa o combate!

Nara como a luta como jogo de futebol!

 

Movimento III - Final

 

Perseguição

Sérgio Ricardo

 

Procurou pelo sertão

Todo o mês de fevereiro

O dragão da maldade

Contra o santo guerreiro

Procura Antonio das Mortes

Todo o mês de fevereiro

Procura antonio das mortes

Caçador de cangaceiro

 


- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
(Mais forte são os poderes do povo!)
Cronograma:
- 22/05 - Fechamento do roteiro
- 23 em diante - Ensaios
- 10/07 - Apresentação

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