Processos Criativos – Projeto performance
“O cômico é a arte do feio”
Ariano Suassuna
Homero e a Comicidade Épica – A morte de Heitor
Apresentação
Minha proposta performática
centrar-se-á fundamentalmente na narração parodística, em sua estrutura e características
no que corresponde a um tratamento épico sobre a cena e no diálogo com o
espectador. Trabalharei com dois referenciais práticos já existentes no meu
repertório de ator e pesquisador. Para a construção da performance, terei como
base a cena da segunda parte do meu espetáculo A Conferência (2007), em que
narra uma história utilizando apenas um trabalho gestual com os dedos, e também o
material teórico da pesquisa que realizei sobre a obra de Glauber Rocha e o
Teatro Dialético de Bertlt Brecht, no mestrado, pois os mesmos continuam como
subsídios para a pesquisa de doutorado que estou iniciando, agora centrando-me
mais no diálogo com Antonin Artaud e o Teatro da Crueldade. Meu objetivo,
portanto, é realizar um trabalho que ao mesmo possa corresponder aos preceitos
teóricos e práticos propostos pela disciplina como também dialogar com meu
próprio objeto de estudo, esboçando desde já um material que possa servir a uma
futura publicação ou apresentação em congressos da área.
A cena escolhida pertence ao Canto
XXII da Ilíada, o confronto entre Aquiles e Heitor.
Os deuses gregos sorriem e
manipulam o destino dos homens! Do trágico ao cômico, tal jogo é verdadeira
batalha pelo poder na terra ou no Olimpo. Conforme Bakhtin, Os deuses homéricos
riem e se divertem em seu banquete de carne e vinho.
É exatamente no percurso da
carnavalização proposto pelo teórico russo, alinhavando comicidade e seriedade que pretendo desenvolver esse
trabalho performático sobre trecho da Ilída, de Homero.
Cena/adaptação
Uma reprodução de luta com os
dedos, objetos ou bonecos, com redução cênica ao mínimo do espaço cujo palco
passa a ser a superfície de uma mala, tendo como referência uma cena do
espetáculo A Conferência, escrito por mim há alguns anos. A cena original, no entanto, é a de Carlitos e a "dança" com os pães.
Roteiro básico:
A cena será adaptada da seguinte
forma. Um homem, carregando uma velha mala, como espécie de pregoeiro/contador
de histórias, entra cantando uma canção Na Estrada das Areias de Ouro, de Elomar
Figueira de Melo, depois, senta-se em um banco ou cadeira. Enquanto o público
entra ele puxa conversa com as pessoas sobre qualquer coisa, talvez sobre
objetos que ele carrega na mala. Quando o público se acomoda ele abre a velha
mala, retira da mesma um velho gravador, e acomoda a mesma sobre as pernas. A
ideia é a redução mínima da cena, o palco onde acontecerá a cena a ser narrada
é a própria mala que será iluminada com uma pequena lanterna. Em seguida, como
um locutor de rádio, anuncia o grande evento. Antes entoa a canção Perseguição,
de Sérgio Ricardo, tema do confronto entre Corisco e Antonio das Mortes, no
filme Deus e O Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. O tempo e o espaço da
narrativa épica estão preparados. A cena será realizada/narrada apenas com as
mãos e dedos do ator na narração da luta entre Aquiles e Heitor. Na cena
final, no diálogo épico e metafórico com a obra de Glauber Rocha, a ideia é ter
a cena do confronto entre Corisco e Antônio das Mortes projetada no corpo do
ator/narrado.
Movimento I – Entrada
Na Estrada das Areias de Ouro
Elomar Figueira Melo
Lá dentro no fundo do sertão
Tem uma estrada
de areia de ouro
Por onde andaram
Outrora senhores-de-engenho
E de muitas riquezas
Escravos e Senhoras
Naquelas terras imensas
De Nosso Senhor
Lá dentro no fundo do sertão
Tem uma estrada
de areia de ouro
E contam que em noites
De lua pela estrada encantada
Uma linda sinhazinha
Vestida de princesa
Perdida sozinha vagueia
Pelas areias
Guardando o ouro
De seu pai, seu senhor
Aquele fidalgo
que o tempo levou
Pras bandas do mar de pó
E hoje que tudo passou
A linda sinhazinha
Encantada ficou
Lá dentro no fundo do sertão
Na estrada
das areias de ouro
Tem uma estrada
de areia de ouro
Por onde andaram
Outrora senhores-de-engenho
E de muitas riquezas
Escravos e Senhoras
Naquelas terras imensas
De Nosso Senhor
Lá dentro no fundo do sertão
Tem uma estrada
de areia de ouro
E contam que em noites
De lua pela estrada encantada
Uma linda sinhazinha
Vestida de princesa
Perdida sozinha vagueia
Pelas areias
Guardando o ouro
De seu pai, seu senhor
Aquele fidalgo
que o tempo levou
Pras bandas do mar de pó
E hoje que tudo passou
A linda sinhazinha
Encantada ficou
Lá dentro no fundo do sertão
Na estrada
das areias de ouro
Ou a cantoria
Vou lhes contar uma história
Que aconteceu lá no sertão
Eram dois cabras-machos
Descendentes de lampião
Um lutava pela honra
Outro vingava um amigo
Heitor era um deles
Aquiles seu inimigo
Um empunhava uma espada
Outro um rifle bem comprido
No centro dessa disputa
Uma moça foragida
Helena foi para tróia
Atraída pelo umbigo
Dos prazeres da carne
Fez do leito seu abrigo!
Na vida como na morte
Todos buscam um sentido
O sangue escorreu pela pele
Faca ou tiro é um perigo
Movimento II - Narração
- Senhoras e senhores! Hoje, finalmente chegou o grande dia
da grande batalha! De um lado um magnífíco defensor de Tróia, o maravilhoso
Heitor, o matador de homens! De outro lado, o virtuoso, o magnânimo semi-deus,
sem mais conter toda a sua ira, Aquiles! Aquiles, o vingador, que promete
vingar a morte de seu grande mante/amigo, Pátroclo! É a peleja do dragão da
maldade contra o santo Guerreiro!
Começa o combate!
Nara como a luta como jogo de futebol!
Movimento III - Final
Perseguição
Sérgio Ricardo
Procurou pelo sertão
Todo o mês de fevereiro
O dragão da maldade
Contra o santo guerreiro
Procura Antonio das Mortes
Todo o mês de fevereiro
Procura antonio das mortes
Caçador de cangaceiro
- Se
entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
(Mais forte são os poderes do povo!)
- Eu não me entrego, não!
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego, não!
(Mais forte são os poderes do povo!)
Cronograma:
- 22/05 - Fechamento do roteiro
- 23 em diante - Ensaios
- 10/07 - Apresentação
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